O mercado imobiliário português chegou ao mês de março de 2026 com um novo marco histórico: a avaliação bancária da habitação fixou-se em 2.122 euros por metro quadrado em fevereiro, o valor mais elevado alguma vez registado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Os dados, divulgados a 25 de março, confirmam uma trajectória de valorização que se mantém robusta há vários anos e que coloca crescentes desafios à acessibilidade habitacional, em particular para as famílias que dependem do crédito à habitação para concretizar a compra de casa.
Face ao mês anterior, a subida foi de 17 euros por metro quadrado, o que corresponde a um acréscimo de 0,8%. Em termos homólogos, o crescimento atingiu os 17,2%, continuando a superar em larga medida a inflação geral e o crescimento dos rendimentos das famílias portuguesas.
Novo Máximo Histórico: os Números do INE para Fevereiro de 2026
Para o apuramento do valor mediano de fevereiro de 2026, o INE considerou um total de 29.625 avaliações bancárias, repartidas entre 18.380 apartamentos e 11.245 moradias. Quando comparado com o período homólogo, este número representa uma diminuição de 15,6% no volume de avaliações — um sinal de que a actividade transaccional está a abrandar, ainda que os preços continuem a subir.
O dado contraria a lógica convencional de mercado, segundo a qual uma redução da procura deveria pressionar os preços em baixa. Na prática, a escassez de oferta adequada às necessidades das famílias, conjugada com o investimento externo e o dinamismo do alojamento local, tem sustentado a valorização mesmo num contexto de menor volume de transações.
Apartamentos lideram a subida: 2.478 euros por metro quadrado
A análise por tipologia de imóvel revela dinâmicas distintas. Os apartamentos registaram o valor mediano de avaliação mais elevado: 2.478 euros por metro quadrado, o que representa uma subida de 21,9% em relação a fevereiro de 2025. As moradias unifamiliares apresentaram um crescimento mais moderado, com um valor mediano de 1.529 euros por metro quadrado, correspondente a um acréscimo de 13,5% em termos homólogos. Ambos os segmentos atingiram máximos históricos no mês em análise, reflectindo a amplitude da valorização no mercado imobiliário português.
Disparidades Regionais: Lisboa e Algarve Muito Acima da Média Nacional
A desigualdade geográfica constitui uma das características mais marcantes do mercado imobiliário português. Em fevereiro de 2026, a Grande Lisboa registou o valor mediano de avaliação bancária mais elevado do país: 3.298 euros por metro quadrado, o que equivale a uma valorização de 52,4% acima da mediana nacional. O Algarve ocupou a segunda posição, com 2.856 euros por metro quadrado, superando a mediana nacional em 32,8%. A procura persistente por parte de compradores internacionais e o peso do mercado de arrendamento de curta duração continuam a distinguir esta região das demais.
Na extremidade oposta encontram-se o Alentejo, com o valor mais baixo do país — 1.477 euros por metro quadrado — e a região Centro, com 1.612 euros por metro quadrado. Estas assimetrias traduzem-se em realidades muito distintas para as famílias. A Península de Setúbal, que historicamente funcionou como alternativa mais acessível à capital, apresenta já valores de avaliação 23% acima da mediana nacional, reflexo da pressão que a migração de famílias a partir de Lisboa tem exercido sobre este território.
Crédito à Habitação: Taxas de Juro e Volume de Empréstimos
Para a maioria das famílias portuguesas, a aquisição de habitação passa pela contratação de um crédito à habitação. Em março de 2026, a taxa de juro média aplicada aos novos contratos de empréstimo para habitação fixou-se em 2,84%, segundo dados do Banco de Portugal. Por modalidade, a taxa fixa situou-se nos 3,55%, a taxa variável nos 2,79% e a taxa mista nos 2,72%.
No que respeita à Euribor — o indexante de referência para a maioria dos créditos à habitação com taxa variável em Portugal —, a taxa a 12 meses fixou-se em 2,552% em meados de março, o valor mais elevado desde janeiro de 2025. A Euribor a seis meses, que desde o início de 2024 passou a ser a mais utilizada nos contratos de taxa variável, situou-se em 2,333%. Estes movimentos acrescentam pressão ao orçamento das famílias com empréstimos indexados a esta taxa.
O volume de novos créditos à habitação contraiu quase 19% no início de 2026 face ao período homólogo, segundo dados do idealista/news. A combinação de preços históricos com custos de financiamento ainda exigentes está a manter muitos potenciais compradores fora do mercado, em particular os jovens sem poupanças acumuladas suficientes para fazer face às entradas e despesas associadas à aquisição de imóveis.
Perspectivas para 2026: Novos Recordes no Imobiliário Português
As previsões das principais agências de notação financeira não apontam para uma inversão da tendência no curto prazo. A Fitch antecipa um crescimento nominal dos preços da habitação em Portugal de 15% durante 2026, após um aumento de aproximadamente 18% registado em 2025. Caso esta projeção se confirme, Portugal voltará a figurar entre os mercados imobiliários com maior valorização na Europa, o que reforça a atractividade do país para o investimento externo, mas agrava as dificuldades de acesso das famílias de rendimentos médios e baixos.
Existem, no entanto, factores que poderão moderar o ritmo de subida. O Boletim Económico do Banco de Portugal, publicado esta semana, reviu em baixa a projeção de crescimento do PIB para 1,8% em 2026, reflectindo um enquadramento internacional mais adverso. Um abrandamento da actividade económica poderá, a prazo, traduzir-se numa menor procura no mercado imobiliário. As tarifas comerciais dos Estados Unidos poderão ainda reduzir o PIB acumulado de Portugal em até 1,1 pontos percentuais até 2027, segundo as projecções do Banco de Portugal — um risco que, a materializar-se, afectará o rendimento disponível das famílias e a sua capacidade de acesso ao mercado habitacional.
Empresas compram menos casas, mas pagam preços mais elevados
Um dado adicional que emerge da análise do mercado: as empresas estão a adquirir menos imóveis em Portugal, mas as transações que concretizam envolvem preços unitários mais elevados. Esta selectividade crescente dos investidores institucionais, que concentram recursos em activos de maior qualidade e localização privilegiada, tem contribuído para sustentar os preços nos segmentos premium do mercado mesmo quando o volume total de transações recua, exercendo um efeito de arrasto sobre os restantes segmentos do mercado imobiliário.
O novo recorde da avaliação bancária — 2.122 euros por metro quadrado em Portugal — é mais do que um indicador estatístico. É o reflexo de um mercado imobiliário que continua a valorizar-se a um ritmo muito acima do crescimento dos rendimentos, tornando o acesso à habitação própria uma realidade cada vez mais distante para uma parte significativa da população. Com os preços a subirem, o crédito sob pressão e as previsões a apontarem para um 2026 sem correcções significativas, a questão da acessibilidade habitacional permanecerá no centro do debate económico e político em Portugal nos meses que se seguem.

