As tarifas impostas pela administração Trump sobre as importações europeias voltaram a chacoalhar os mercados financeiros globais, com Lisboa a não escapar à turbulência. O PSI, principal índice da Euronext Lisboa, registou quedas expressivas nas sessões mais recentes, espelhando o nervosismo dos investidores perante uma escalada protecionista que coloca Portugal entre os países europeus mais vulneráveis às novas barreiras comerciais norte-americanas. Num quadro em que as negociações entre Bruxelas e Washington prosseguem sem desfecho claro, os efeitos já se fazem sentir tanto na bolsa como nas perspetivas das exportações nacionais.
O PSI na turbulência das tarifas norte-americanas
Com a imposição de taxas alfandegárias de 20% sobre os produtos europeus exportados para os Estados Unidos, a bolsa de Lisboa sofreu um dos seus piores dias recentes, com o PSI a recuar mais de cinco por cento numa única sessão, para valores próximos dos 6.286 pontos. A queda acompanhou o tom das restantes praças europeias: o EuroStoxx 600 registou uma contração superior a cinco por cento no mesmo período, enquanto Paris, Frankfurt e Londres perderam, respetivamente, quase seis, seis e meio e mais de quatro por cento num único dia de negociação. O choque foi transversal e simultâneo, refletindo a dimensão global da incerteza gerada pelas políticas comerciais da administração republicana.
Entre as cotadas de Lisboa que mais sentiram a pressão contam-se a EDP Renováveis e a Mota-Engil, com descidas superiores a um por cento nas sessões mais negativas. A Galp recuou para mínimos de três meses, e o BCP também não escapou ao ciclo descendente. Mesmo após alguma recuperação nos dias seguintes, no final de março o PSI mantinha-se cerca de 4,21% abaixo do nível registado um mês antes, pairando na zona dos 8.882 pontos, o que ilustra que a turbulência não foi apenas pontual.
Um índice mais resiliente do que os números de curto prazo sugerem
Apesar do ambiente adverso, há uma perspetiva que merece atenção: em termos anuais, o PSI acumula uma valorização próxima dos 28% face ao período homólogo, o que significa que a bolsa de Lisboa enfrentou este choque a partir de uma posição de relativa solidez. Esta reserva de ganhos acumulados pode funcionar como amortecedor contra ondas de vendas em pânico, dando algum fôlego à praça lisboeta enquanto as negociações diplomáticas e comerciais tentam encontrar um equilíbrio. Ainda assim, analistas alertam que a persistência das tarifas além dos próximos meses poderá começar a corroer os fundamentos das empresas mais expostas ao mercado norte-americano.
Exportações portuguesas na linha de fogo das tarifas Trump
Para além do impacto imediato nos mercados financeiros, são as exportações que suscitam maior preocupação no horizonte de médio prazo. Um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto estima que Portugal poderá perder cerca de 370 milhões de euros em receitas de exportação num único ano, com a eliminação de aproximadamente 5.500 postos de trabalho nas cadeias de valor mais dependentes do mercado norte-americano.
O setor farmacêutico destaca-se como o mais vulnerável desta equação: em 2024, Portugal exportou mais de 1.100 milhões de euros em medicamentos para os Estados Unidos, tornando-o altamente dependente de um mercado que passou a impor custos adicionais consideráveis. Para além da farmácia, também a cortiça e o vestuário — duas áreas onde Portugal detém vantagens competitivas reconhecidas internacionalmente — perderam as isenções tarifárias de que até aqui beneficiavam, ficando agora sujeitas às mesmas taxas que os seus concorrentes de outros países.
- Farmacêutico: mais de 1.100 milhões de euros exportados para os EUA em 2024, o setor mais exposto às novas barreiras tarifárias
- Cortiça: produto emblemático português perde a isenção tarifária e enfrenta maior concorrência nos mercados de destino
- Vestuário e têxtil: setor já pressionado pela concorrência asiática vê agravados os custos de acesso ao mercado norte-americano
Portugal entre os países da UE mais penalizados
Análises publicadas pelo Euronews e pelo Público apontam Portugal como um dos países da União Europeia potencialmente mais prejudicados por uma tarifa global de 15% sobre bens europeus. A razão prende-se com a estrutura das exportações nacionais: o país vende proporcionalmente mais para os Estados Unidos em setores de baixa elasticidade de substituição, o que dificulta a redirecção rápida das vendas para outros destinos. A Associação Comercial do Porto projeta um impacto total na economia nacional que poderá ultrapassar os 750 milhões de euros, considerando tanto os efeitos diretos como os indiretos nas cadeias de fornecimento europeias que abastecem empresas portuguesas.
A resposta europeia e as negociações em aberto
Bruxelas não ficou de braços cruzados perante a escalada protecionista de Washington. A União Europeia delineou um pacote de contramedidas que poderá atingir os 72 mil milhões de euros em bens e serviços norte-americanos sujeitos a taxas equivalentes. Esta cifra representa uma evolução significativa face à primeira lista de retaliação, avaliada em 21 mil milhões de euros, elaborada em resposta à tarifa de 30% inicialmente anunciada pela administração americana.
A intensidade da resposta europeia dependerá, em larga medida, da evolução das negociações bilaterais. A referência mais imediata é o que aconteceu com a China: Pequim respondeu às tarifas norte-americanas de 34% com medidas simétricas sobre todos os bens provenientes dos EUA a partir de abril, acelerando a espiral protecionista global. Se a relação entre a UE e os EUA seguir trajetória semelhante, o impacto económico total poderia ser substancialmente mais grave do que os cenários base considerados pela maioria das instituições económicas europeias e nacionais.
Perspetivas para investidores e para a economia real
O Banco de Portugal incorporou estes riscos nas suas projeções macroeconómicas de março de 2026. Segundo os cálculos da instituição, tarifas adicionais de 25% sobre todos os produtos europeus poderão reduzir o crescimento acumulado da economia portuguesa em 1,1 pontos percentuais ao longo de três anos, num cenário de escalada total com retaliação mútua. Numa versão mais moderada das tensões comerciais — que continua a ser o cenário de base da maioria dos economistas —, a perda de crescimento ficaria nos 0,15 pontos percentuais em 2026 e nos 0,05 pontos em 2027.
Para quem investe no PSI, a mensagem que emerge de vários analistas é a de prudência sem precipitação: o índice lisboeta tem fundamentos que sustentam algum otimismo de médio e longo prazo, mas o ambiente comercial global é hoje mais imprevisível do que em qualquer momento recente. Para a economia real, a prioridade estratégica é clara: diversificar mercados de exportação, reforçar a competitividade das indústrias mais expostas e acompanhar de perto a evolução das negociações entre Bruxelas e Washington — antes que as tarifas Trump deixem de ser apenas uma ameaça e se tornem numa realidade permanente nas contas das empresas portuguesas.

