O índice PSI recuou mais de 5% em março de 2026 e empresas como a EDP Renováveis e o BCP registaram perdas superiores a 9% numa única sessão. A causa é conhecida: as tarifas comerciais anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estão a redesenhar o mapa do risco global — e Portugal não ficou de fora do tremor.

Perceba o que está a acontecer, quais as empresas mais afetadas e o que os especialistas estão a dizer sobre o impacto na economia portuguesa.
O Que São as Tarifas de Trump e Por Que Afetam Portugal?
Em março de 2026, a administração Trump avançou com uma nova vaga de tarifas sobre importações de dezenas de países, incluindo membros da União Europeia. A medida, apresentada como forma de proteger a indústria americana, gerou uma onda de volatilidade nos mercados financeiros de todo o mundo.
Portugal, apesar de ser uma economia de dimensão média, está exposto a este choque por várias vias:
- Exportações para os EUA: setores como cortiça, vinhos, calçado e componentes industriais têm nos Estados Unidos um dos principais mercados de destino.
- Empresas cotadas com presença global: grupos como a EDP, a Galp ou a Altri têm operações internacionais diretamente expostas à incerteza cambial e comercial.
- Contágio financeiro: mesmo sem exposição direta, a queda das bolsas europeias arrasta os índices portugueses por via do sentimento negativo dos investidores.
O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) foi claro: não existe “manual de economia que ajude a prever” o impacto destas tarifas — e isso, por si só, é preocupante.
PSI em Queda: Os Números que Marcaram Março
O mês de março ficou marcado por fortes correções na Bolsa de Lisboa. O PSI, principal índice da Euronext Lisboa, registou:
- Queda de 2,13% na sessão de 20 de março, descendo para os 8.756 pontos.
- Recuo acumulado de 5,29% no último mês.
- Apesar das perdas recentes, o índice ainda mantém uma valorização de 28,81% face ao mesmo período do ano anterior, reflexo do excelente desempenho de 2025.
As quedas foram transversais, mas a EDP Renováveis e o BCP (Banco Comercial Português) lideraram as perdas, com recuos superiores a 9% numa única sessão — valores que evidenciam a sensibilidade destes títulos à volatilidade geopolítica e comercial.
Quais os Setores Mais Vulneráveis?
Energias Renováveis
A EDP e a EDP Renováveis têm projetos nos Estados Unidos — especialmente em energia eólica e solar. As incertezas regulatórias e tarifárias colocam em causa investimentos planeados e podem pressionar as margens operacionais do grupo.
Banca
O BCP e outros bancos cotados não têm exposição direta às tarifas, mas sofrem o impacto indireto: clientes empresariais exportadores entram em dificuldades, o risco de crédito aumenta e o apetite dos investidores por ações financeiras diminui em momentos de incerteza.
Indústria e Exportação
Empresas como a Corticeira Amorim — líder mundial na produção de rolhas de cortiça — ou a Altri, no setor do papel e celulose, têm nos mercados internacionais uma parte relevante das suas receitas. Qualquer abrandamento do comércio global afeta diretamente os seus resultados.
O Que Dizem as Previsões para a Economia Portuguesa?
Apesar da turbulência nos mercados, as previsões macroeconómicas para Portugal mantêm-se globalmente positivas. O Banco de Portugal, no seu Boletim Económico de março de 2026, projeta:
- Crescimento do PIB de 2,3% em 2026, sustentado pela procura interna.
- Inflação em torno dos 2,1%, num cenário de estabilidade de preços.
- Mercado de trabalho resiliente, com o emprego em máximos históricos e desemprego nos níveis mais baixos das últimas décadas.
Oportunidade ou Risco? O Dilema dos Investidores
A queda do PSI em março coloca os investidores portugueses perante uma questão inevitável: é altura de comprar ou de esperar?
A favor de uma visão otimista:
- O PSI ainda acumula quase 29% de valorização num ano — a correção atual pode ser uma normalização saudável.
- Os dividendos continuam atrativos: várias empresas do índice oferecem yields interessantes, mesmo com a cotação a cair.
- A economia portuguesa está a crescer acima da média europeia.
A favor de uma postura cautelosa:
- A guerra comercial entre os EUA e a UE pode escalar, com impacto imprevisível nas exportações portuguesas.
- A volatilidade em Wall Street — o S&P 500 registou o seu pior dia em quase cinco anos — pode continuar a contaminar as bolsas europeias.
- O risco político nos EUA permanece elevado e difícil de antecipar.
O Contexto Europeu: Portugal Não Está Sozinho
A Bolsa de Lisboa não caiu sozinha. O DAX alemão, o CAC francês e o FTSE britânico registaram perdas expressivas nas mesmas sessões, confirmando que o choque é externo e afeta toda a zona euro. Isso reforça a necessidade de diversificação: investidores excessivamente concentrados em ativos europeus ficam especialmente expostos neste tipo de cenário.
O Que Esperar nas Próximas Semanas?
Os mercados continuarão atentos a três variáveis fundamentais:
- Evolução das negociações comerciais EUA-UE: qualquer sinal de diálogo ou recuo nas tarifas pode desencadear uma recuperação rápida das bolsas europeias.
- Decisões do Banco Central Europeu (BCE): a política monetária continuará a influenciar o custo do crédito e a atratividade das obrigações face às ações.
- Resultados das empresas cotadas: a época de resultados do primeiro trimestre de 2026 dará sinais concretos sobre o impacto real das tarifas nas grandes empresas do PSI.
Para os investidores portugueses, a mensagem é clara: o mercado está a testar a resiliência, e quem tiver uma estratégia sólida e horizonte de longo prazo tem menos motivos para entrar em pânico.
Conclusão
As tarifas de Trump são o principal fator de pressão sobre o mercado financeiro português em março de 2026. A queda do PSI, as perdas acentuadas em títulos como a EDP Renováveis e o BCP, e a incerteza sobre o impacto nas exportações nacionais são sinais que os investidores e as empresas não podem ignorar.
Ainda assim, os fundamentos da economia portuguesa permanecem sólidos: crescimento acima de 2%, inflação controlada e mercado de trabalho em máximos históricos. O choque é real, mas não elimina as razões para um otimismo moderado sobre o futuro da economia e dos mercados nacionais.
Acompanhar de perto os desenvolvimentos das próximas semanas — e manter uma carteira diversificada — será essencial para navegar neste período de incerteza com serenidade.

